Veja como o agronegócio brasileiro pode ser impactado pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia
- Equipe Braspulv

- 3 de mar. de 2022
- 3 min de leitura
Rússia é a maior fornecedora de fertilizantes do Brasil. Ucrânia se destaca na produção de milho mundial e uma possível retirada do país do mercado internacional pode acarretar em alta dos preços do grão.

Após dias de tensão, a Rússia invadiu a Ucrânia nesta quinta-feira (24). O conflito entre os dois países pode trazer consequências indiretas para outras nações, inclusive o Brasil.
No agronegócio brasileiro, o Brasil depende de fertilizantes importados e a Rússia é a maior fornecedora do insumo. Além disso, o país europeu compra commodities e carnes do Brasil. Na visão somente de produtos agropecuários, a Rússia ficou na 22ª posição dentre os maiores importadores, com US $1,27 bilhão adquiridos em 2021 (participação de 1,06%), segundo o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento.
A Ucrânia, por sua vez, é líder na produção de milho. Uma possível retirada do país do mercado internacional, diminuiria a oferta do cultivo, provocando uma alta no preço do grão, que é muito usado como ração, aumentando, assim, os custos de produção na pecuária e das carnes nas prateleiras.
Ambos os países se destacam na produção de trigo, produto que já apresentava alta nesta quinta-feira de mais de 5% na bolsa de Chicago. A eventual menor oferta ocasionada pela guerra pode afetar a comercialização mundial do produto, incluindo o Brasil, que compra o cereal da Argentina, que pode ter um aumento da demanda.
Os fertilizantes químicos funcionam como um tipo de adubo, usados para preparar e estimular a terra para o plantio. Antes mesmo do conflito, o mundo já enfrentava uma crise no setor, com encarecimento dos preços e escassez no mercado.
Os principais motivos eram problemas energéticos em países fornecedores da matéria-prima para esses produtos, como China, Rússia e Índia, e problemas logísticos por causa da falta de contêineres e navios..
Agora isso pode se estender ou até mesmo piorar. Isso porque, no mercado mundial, a Rússia domina 10% dos nitrogenados, 7% dos fosfatados e 20% dos potássicos, aponta Fábio Mizumoto, coordenador do MBA de agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Considerando o Brasil, das mais 41 milhões de toneladas do produto importadas em 2021, o país foi a origem de 23%, segundo levantamento do Comex Stat.
De acordo com dados do Itaú BBA, considerando as matérias-primas para os fertilizantes, do total comprado pelo Brasil, vieram da Rússia:
20% dos nitrogenados;
28% do potássicos;
15% dos fosfatados.
A soja, por exemplo, principal commodity do Brasil, depende muito do fósforo e do potássio. Em possível impacto desses produtos, até as rações para a pecuária seriam afetadas, por sua vez, elevando o custo de produção das carnes e o valor para o consumidor, diz Mizumoto.
"Porque a gente não consegue uma fonte alternativa que facilmente substitua a Rússia como fornecedora. Existem outros potenciais supridores? Sim, mas essa substituição não é nem perfeita e nem barata", explica o professor.
Já o milho depende dos nitrogenados, que não possuem tantos outros fornecedores, explica.
"Talvez um cidadão comum urbano tenha uma imagem de que é só plantar, que tudo dá no Brasil. Isso não é verdade. Os nossos solos são, em grande parte, pobres em nutrição e a gente precisa corrigir a capacidade nutricional para ter produtividade", diz Mizumoto.
O professor afirma que a logística da Rússia já está sendo afetada, causando dificuldades para prever a importação destes insumos e o envio de commodities, por causa das possíveis problemáticas da produção.
Além disso, após o produto chegar ao Brasil, ele também precisa de tempo para o caminho até o agricultor, o que também pode atrasar os cultivos.
Há ainda a incerteza da disponibilidade dos fertilizantes, o que pode fazer os seus preços subirem, aponta Cesar de Castro, especialista de agronegócio do Itaú BBA.
Ele explica que o encarecimento já acontece desde o ano passado e muitos produtores aguardavam que eles caíssem para comprar os insumos, contudo os valores continuam crescendo.
Estes impactos devem ser sentidos pelo consumidor, principalmente, na safra de 2023, que é plantada no segundo semestre deste ano. Os cultivos que estão na lavoura agora já foram plantados e seus insumos já foram comprados em 2021.




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